sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Produção de vinho no Vale do Rio São Francisco também é um roteiro turístico

JUAZEIRO (BA) - Desde que o sertão virou mar - leia-se a construção da Usina Hidrelétrica de Sobradinho inundou mais de 4 mil quilômetros quadrados de caatinga - um bocado de coisa mudou no Vale do São Francisco na região de Juazeiro e Petrolina. Concentradas para gerar energia, as águas do Velho Chico também foram espalhadas pelo vale para gerar frutas tipo exportação, graças à técnica da agricultura irrigada. Entre mangas e melancias, encontram-se também uvas, que saem dali não só "in natura" mas também fermentadas, engarrafadas e rotuladas. Pois é, depois de mar, o sertão virou "terroir". E o turista ganhou um novo motivo para visitar a terra de João Gilberto e Ivete Sangalo, cantada ainda por Alceu Valença em "Juazeiro, Petrolina", forró de Jorge de Altinho. Com a particularidade de produzir mais de uma safra por ano, graças ao clima, o solo franciscano já atrai produtores portugueses e espanhóis, e levou tal quantidade de gaúcho a trocar o "bá" pelo "oxente" que daqui a pouco o sertão vira é pampa.

Vinícola no São Francisco/Luciana Brum
Aos poucos, o vinho começa a fazer parte do dia a dia dos habitantes de Juazeiro e Petrolina, um conglomerado de cerca de 500 mil habitantes que é a principal concentração populacional do semiárido nordestino. Embora nos barzinhos se veja mais a tradicional cervejinha, as garrafas com a inscrição "Vale do São Francisco" no rótulo estão nas gôndolas dos supermercados e são a principal atração das lojas de suvenires do aeroporto de Petrolina, cidade que já tem uma loja dedicada à bebida em sua orla.

Se ainda não consomem tanto o vinho, petrolinenses e juazeirenses foram os primeiros a aderir ao enoturismo.

- Recebemos muitos visitantes da região, virou um passeio comum de fim de semana - conta Flávia Cavalcanti, enóloga responsável pelo programa de visitação da Fazenda Ouro Verde, uma parceria entre as vinícolas Miolo e Lovara, além da fabricante espanhola de brandy Osborne, emendando que, depois dos locais, a maioria de visitantes é de Recife e Salvador.

Única das vinícolas do Vale do São Francisco localizada no lado baiano (no município de Casa Nova, a cerca de meia hora de Juazeiro), a Fazenda Ouro Verde lançou em outubro do ano passado o seu programa de enoturismo, em cerimônia com a presença do governador Jacques Wagner e harmonização da iguaria mais típica da região, o bode, com vinho. Com menos de um ano de atividade, ele já chegou a registrar mil visitantes num mês. Mais estruturada da região, a visita é acompanhada por enólogos formados em curso específico no Cefet da região (o único a oferecê-lo, além do localizado no Vale dos Vinhedos, no Rio Grande do Sul) e termina numa lojinha de onde é praticamente impossível sair de mãos vazias, ainda mais depois de sacudir, checar a cor, sentir o buquê e analisar o tanino de uns seis rótulos.

É na própria lojinha, no térreo da casa sede da fazenda, que os grupos se reúnem para dar início ao passeio. Em seus próprios carros - a vinícola não oferece o transporte a partir de Petrolina ou Juazeiro, mas é possível consegui-lo com as agências de receptivo locais - os visitantes seguem para os vinhedos, que se espalham por 150 hectares do total de 700 da propriedade.

Para quem nunca esteve num vinhedo, a paisagem pode não despertar estranhamento algum - além, claro, do de se ver parreiras firmes e fortes em meio ao cenário de árvores baixas e arbustos retorcidos típico da caatinga. Mas os que já deram seus primeiros passos no mundo da enologia notarão logo um "pequeno" detalhe que difere o vale de todas as regiões produtoras de vinho do mundo. Enquanto nos climas temperados todas as parreiras seguem um mesmo curso de amadurecimento, definido pelas estações do ano, que terminará na colheita de uma única safra anual, no sertão colhem-se duas, três... O que fica bastante claro quando se vê o campo com parreiras em diferentes estágios de desenvolvimento.

- Esta é uma característica única daqui. Por causa do clima, uma planta já está pronta para colheita dois ou três meses depois da poda. Colhemos duas safras por ano de cada planta, mas poderíamos colher mais. Nos limitamos para não ter mais produção do que meios de escoá-la - explica o gerente técnico da Ouro Ver de, o gaúcho Flávio Durante.

Pode-se ver, portanto, lado a lado, plantas carregadas de cachos e outras sem uma folhinha sequer. Um deleite para as câmeras dos visitantes, que, se já não estavam, começam a clicar tudo quanto é planta com suas câmeras digitais após ou virem essa explicação toda. Entre uma pergunta e outra - que, por ser comum haver no grupo um estudante de enologia ou agricultura, podem ser bastante técnicas - as pausas são para atacar os frutinhos já maduros das parreiras. O que nem sempre termina em suspiros de satisfação, já que algumas variedades viníferas, como a syrah, só viram um néctar dos deuses depois de amassadas e fermentadas.

Vinhedo no São Francisco/Foto de Luciana Brum
A syrah, ou shiraz, aliás, foi a uva que melhor se adaptou ao terroir nordestino - está para o Vale do São Francisco como a malbec está para Mendoza, ou a carménère para o Chile. Mas não é a única pendendo dos galhos: na Ouro Verde também tem cabernet sauvignon (combinada com a syrah num dos rótulos ali produzidos), tempranillo, grenache, chenin blanc, verdejo, sauvignon blanc e, claro, a moscatel, matéria-prima do carro-chefe da vinícola, um espumante dulcíssimo responsável por 70% das vendas.

Para quem tem dor de cabeça só de pensar, a boa notícia é que o espumante vem também nas versões brut e demi-sec. A vinícola produz no total 1,5 milhão de litros por ano, divididos entre três espumantes, dois vinhos jovens (um shiraz e um dry muscat), um de guarda ou reserva (o cabernet/shiraz) e um late harvest (ou colheita tardia), como são chamados os vinhos de sobremesa produzidos com uvas quase passas, todos com o rótulo Terranova, além do brandy Osborne.

Por falar em brandy, ele nada mais é do que o conhaque não proveniente da região de Cognac, na França. Sua destilaria também faz parte do passeio. Logo depois de ver a máquina que separa as uvas de seus galhos, a que faz o esmagamento para obtenção do mosto (e substituiu a pitoresca função de pisar a uva) e os tonéis onde tem início a fermentação, os visitantes seguem para a sala onde um alambique importado da França (de Cognac, claro, onde mais?) faz parte da destilação do brandy (a outra parte é feita por outro método, em outra máquina). Na fermentação, o guia explica, é fundamental o processo de refrigeração, uma maneira de evitar que o calor do ambiente faça as uvas fermentarem além do ponto.

Mas o momento mais esperado por todos é mesmo o de sentar à mesa, dentro da lojinha, com uma fileira de copos à frente, para degustar o produto final de tudo o que se viu. E apesar de ter começado na década de 1970, a produção de vinho no Vale do São Francisco ainda surpreende. Uma placa em forma de touro, o símbolo da Osborne, na entrada da Ouro Verde, faz muita gente dirigir os três quilômetros da porteira à sede para saber que raio de boi é esse Osborne que estão criando ali.

Margem pernambucana concentra seis vinícolas

Desde que a Cinzano abriu o caminho em meados dos anos 70, um bocado de fabricantes de vinhos e espumantes voltaram suas parreiras para o Vale do São Francisco. Hoje, além da Fazenda Ouro Verde, há seis vinícolas instaladas na região: Vitivinícola do Vale do São Francisco, fabricante do rótulo Botticelli; Adega Bianchetti Tedesco, do Bianchetti; Vitivinícola Lagoa Grande, responsável pelas marcas Carrancas e Garziera; Adega Vale do Sol, dos vinhos Cave do Sol; e Chateau Ducos, além da Vinibrasil, produtora da marca mais conhecida da região até agora, o Rio Sol.

À exceção da Ducos, empreendimento de um grupo italiano comandado por um enólogo francês, e da Vinibrasil, criada por uma parceria entre produtores portugueses e a distribuidora Expand, todas as vinícolas são capitaneadas por gaúchos. E ficam, sem exceção, na margem pernambucana do Velho Chico.

A maioria está de portas abertas aos visitantes, embora não tenham estruturas planejadas especificamente para a recepção de turistas. Questionado sobre a possibilidade de criação de um programa conjunto de visitas às vinícolas, Evandro Pelegrini, gerente da Ouro Verde, explica que o principal impedimento são as distâncias:

- Há trechos de até 100 quilômetros entre uma fazenda e outra.

Fazenda Ouro Verde: Tour pelos vinhedos com degustação dura cerca de uma hora e meia e custa R$ 10, revertidos em bônus para compras na loja da vinícola. É preciso ir em veículo próprio ou contactar uma agência que organize o passeio. Uma das opções é a Associação dos Guias de Turismo do Vale do São Francisco. Tel. (74) 3611-3648.

Pressione para saber mais no O Globo sobre o Passeio pelo Rio São Francisco tem personagens folclóricos e piscinas naturais

O GLOBO em 19/08/2009, por Luciana Brum que viajou a convite da Fazenda Ouro Verde, com apoio da Bahiatursa

Um comentário:

  1. Amores Roubados, seriado exibido pela Globo me deixou curiosa para pesquisar sobre a produção de vinhos no Nordeste. Este Brasil, produtivo, seria bom se houvesse mais interesse em criar empregos nestas terras férteis a doar salários. Seria uma ótima opção também para tornar o sistema presidiário em um sistema produtivo.

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